Rique,
há dois anos que eu pareço um disco riscado, repetindo sempre a mesma coisa, que eu gosto de você mas não gosto do seu esnobismo, gosto de você mas não gosto do seu jeito escorregadio, gosto de você mas não gosto da sua vaidade. Estou sempre falando as mesmas palavras e a gente sempre se desencontrando, se desentendendo, seja no silencio ou na repetição, nunca se afastando realmente e também nunca juntos, uma lengalenga que pode até parecer amor - eu acreditava que fosse amor, por isso passei estes dois anos controlando meu tom de voz, acendendo uma vela pra deus e outra pro diabo, querendo você perto e longe ao mesmo tempo, então repetia: gosto disso em você mas não gosto daquilo, sempre com medo de que você se irritasse de vez e fosse embora, mas com medo também de que você ficasse e me fizesse sofrer mais e mais. Dois anos, Ricardo, pedindo pra você me deixar em paz e nas entrelinhas gritando: me ame, seu idiota! E você surdo, mudo, cego e burro, desperdiçando o que eu tenho de mais sagrado, de mais inteiro e mais honesto, você sempre foi covarde que eu sei. Covarde. É por isso esta carta agora, Ricardo, para mudar de tom e arriscar, vou dizer o que penso, mas agora sem contemporizar, não mais contrabalançando minha decepção com as coisas que eu gosto em você, hoje vou te dizer apenas o que eu não gosto, e azar se isso nos separar de vez, já não há remendo possível de qualquer maneira.
Te acho não só covarde, como mascarado, ainda que bem disfarçado por trás da sua lábia e de suas inócuas intenções. Se você tivesse 17 anos, ainda dava pra entender esta sua fixação em seduzir por seduzir, para colecionar troféus. Todo mundo passa por uma fase de auto-afirmação, mas aos 35, Ricardo, já era hora de você parar de blefar e investir em algo real, um sentimento que te preencha a vida, você acha isso tão aprisionante? Pois prisioneiro você já é desta sua auto-imagem que propaga para qualquer rabo-de-saia e que é falsa, incipiente, ridícula. O que adianta fazer as mulheres caírem aos seus pés por dois ou três meses, se depois elas descobrem o engodo e passam a desprezá-lo? Se você fosse orgulhoso mesmo, reduziria o número de vítimas e aumentaria o número de amigas. Porque se continuar sendo moleque vai morrer bem sozinho, ou com alguma namorada de ocasião, dessas que não vão lhe dar filhos nem justificar seus dias gastos. VOcê gasta seus dias com o supérfluo. E se acha tão profundo...
"Outra apaixonada", você deve estar pensando. Não negarei, sou mesmo apaixonada por você, mas menos, bem menos do que já fui, pois já consigo enxergar quem você é, e quem você pensa que é, duas figuras bem distintas, pois você pensa que é especial, e não passa de uma caricatura de homem, de um disfarce bem feito, um boneco de cera, daqueles que a gente diz, nossa, mas é igualzinho a um ser humano, só que olhando de perto a gente vê que a expressão não muda, o olhar não brilha, a pose é sempre a mesma.
Pobre você, don juanito, que teve mulheres bacanas na mão, não só eu, mas eu inclusive. Você que podia ter dado um basta nas suas pretensões e ter vivido um caso de amor igualzinho aos dos seus amigos, bem demorado e bem curtido, mas ora, imagina, Ricardo Saraiva Paz Vieira, ilustre ninguém, não podia ser mais um, tinha que se destacar, e se destacou como um pretenso bom partido, enquanto não passava de um produto mal acabado de gente. Você prometia. Tinha, e tem, potencial. Só não sabe o que fazer quando chega a hora de se entregar, prefere escapulir feito um rato.
Rique, magoei você o suficiente para me odiar, para me chamar de maluca, para tripudiar sobre meu destempero? Não me importo, você pode estar menosprezando minhas palavras agora, mas elas vão entrar uma por uma na sua cabecinha, vão morar aí por uns dias, até que você consiga mais duas ou três trouxas que o distraiam e o façam esquecer de quem você realmente é: um remendo de homem, um protótipo, um rascunho. Isso, você é o rascunho do homem perfeito, um layout, fica sempre devendo a finalização, o mulherio paga e não te recebe, você deve achar isso muito divertido. Mas, escuta, o único palhaço aqui é você, porque no final das contas é você que resta sempre sozinho, sem uma história verdadeiramente bonita pra contar.
Hoje não te quero e nem quero, gosto e não gosto, acabaram-se os meus cuidados com você, o morde-assopra, você não merece meu carinho, meus elogios, meu apoio, nunca soube retribuir nem agradecer, considera-se merecedor de todos os afetos, quem é você? Um príncipe escondido neste quarto-e-sala em que vive, dirigindo seu carro como se fosse uma nave espacial, olhe bem pra você... Nem bonito você é, nem bonito.
É o homem que eu amo, e isso lhe deveria servir. Mas se não serve, se você dispensa esse tipo de sentimento barato, fazer o quê?
Para mim é sofrimento localizado, e demorado, admito. Mas não vai durar tanto quanto sua catástrofe emocional, que é pra sempre.
Cecília.
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Coloquei o texto no blog simplesmente por achar legal e por querer compartilhar, sem motivos pessoais. Minha vida tá linda e eu não tenho catástrofe emocional, nem sofrimento localizado, e você? Tem? Puts, que pena. Beijos.
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