Período de duração: mês de Março de 2010
Estagiária: Luiza Estabel da Silva
Estudante do curso de Psicologia da PUCRS, 2º semestre
No início, confesso, foi um impacto. Entrar em uma unidade com pacientes crônicos é uma realidade totalmente diferente daquela que eu vejo diariamente há quase 20 anos, mas não totalmente diferente daquilo que eu imaginava lidar um dia. A adaptação não foi difícil, pra mim, acredito que a parte mais difícil tenha sido a adaptação dos pacientes comigo.
Eu tive que me adaptar muito. Precisei me adaptar com aqueles que falam pouco, com aqueles se expressam por olhares, com aqueles que parecem sempre insatisfeitos, com as condições (limpeza, comodidade, etc.) totalmente diferentes do que eu estava acostumada, enfim... Como toda a boa visita, obedeci às regras da casa e tentei ao máximo agradar os donos. O mais curioso foi que, ao mesmo tempo em que eu precisei de tantas adaptações, eles mesmo com suas limitações conseguiram me deixar extremamente à vontade.
Sempre escutei que eu ia me surpreender com o HPSP, que era um lugar com aparência de abandonado, que os pacientes ficavam nos cantos do hospital no meio da sujeira, entre outros absurdos. Eu me pergunto: será que existe outro HPSP? Porque o que eu conheci não é assim. Condições inferiores a de uma clínica particular, sim, mas o cuidado com os pacientes e o carinho com eles é totalmente diferente do que dizem. O hospital é uma casa gigante de uma família gigante, assim que eu vejo. Pelo menos o que pude observar na unidade onde estagiei, é que a equipe acolhe os pacientes de uma forma muito diferente daquilo que se imagina e falam por aí. A equipe que conheci: os enfermeiros, as psicólogas, chefes, os médicos... Todos atenciosos, respondiam minhas perguntas sobre curiosidades, me explicavam doenças e por que tais medicamentos, entre outras coisas.
Quase no meio do tempo combinado (período de um mês), em uma das reuniões de equipe da unidade foi definido que eu iria acompanhar dois pacientes. Um que eu jamais pensei que eu fosse conseguir me aproximar, por ser um paciente complicado, e outro que confesso ter me conquistado desde o início com seu jeito “resmungão”. Foi incrível acompanhar ambos, comecei a entender eles em apenas um olhar, pelas atitudes, consegui me aproximar deles e ter um contato mais próximo com aquilo que eu conhecia apenas na literatura. Procurei não criar vínculos, até porque sei que embora sejam doentes conseguem entender o que acontece na volta deles, mas isso foi mais difícil do que eu imaginava... Não consigo ver eles como pessoas limitadas, pessoas doentes, mas também não vou mentir: no início eu via assim. Hoje os vejo como pessoas que me deram lições de vida incríveis. Cada um, com a sua singularidade, me marcou de alguma forma.
No início, impacto. Hoje, lição. No início, desafio. Hoje, realização. No início, uma novidade. Hoje, parte da minha história. Eu tenho orgulho de falar que eu convivi, e ainda convivo, com essas pessoas – desde equipes até pacientes. E essa experiência foi a melhor “remuneração” que eu poderia ter.
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