7.4.13

"O que é um relacionamento bom, então?"

Ontem, na mesa do bar, me disseram que relacionamento bom era do casal que mora juntos. Que vive juntos. Me disseram que relacionamento bom era relacionamento sério. Eu concordo até certo ponto, porque algo sério demais me constrange - meu riso é frouxo e as brincadeiras são inevitáveis, como ter ou ser algo tão sério? Parece algo longe do meu alcance.

Coloquei três relacionamentos que tive, que considero relevantes, lado a lado. Expus alguns pontos de cada um, ousei escalar por ordem de importância. Esse último, que tem me inspirado, ficou sem segundo pra surpresa de - quase - todos na mesa. Me questionaram sobre por que me fazia feliz, me fazia bem, sobre por que eu estava tão disposta a não desistir. Eu expliquei, com gosto, minha visão.

Uma relação tem que servir pros dois se sentirem 100% à vontade um com o outro, à vontade pra concordar e discordar, à vontade pra fazer sexo sem não-me-toques ou simplesmente pra cair no sono após encher a pança no jantar. Com a televisão ligada ou desligada. À vontade pra, enquanto ela toma uma ducha, ele pregar o olho com roupa e tudo atirado na cama dela - do mesmo modo que ela se sente à vontade pra pegar uma camiseta de pijama emprestada e ficar assistindo filme enquanto ele termina um trabalho.
Uma relação tem que servir pra ela ter com quem ir ao cinema de mãos dadas, pra ter alguém que instale o som novo ou o home thater enquanto o outro cozinha alguma coisa, pra ter alguém com quem viajar pra um país distante ou logo ali no outro estado ver a família, pra ter alguém com quem ficar em silêncio sem que nenhum dos dois se incomode com isso.
Relação boa é aquela que inspira a produção, o bom traje, aquele dia mais vaidoso, mas que acima de tudo estimula a sermos sempre quem somos. De cara lavada, bonitos ao nosso modo, com cabelo de leão ou com abrigo de moletom. Com salto fino ou com chinelo, com terno ou com samba canção. Relacionamento bom é aquele em que os dois se amparam nas inquietações, ensinam a confiar um no outro, a respeitar as diferentes que há entre as pessoas, e deve servir pros dois se divertirem demais mesmo que seja em casa - e aí lembrei do riso bobo ao brincar com os animais, ou da simplicidade de comer sushi no chão da sala assistindo jornalismo esportivo.
No momento do aperto, um cobre a despesa do outro, mas normalmente se divide tudo - afinal a relação é algo compartilhado. Bom mesmo é aquele companheiro que cobre as dores num momento de melancolia e tristeza, medos e receios, tão bem quanto cobre o corpo do outro quando o edredon escorrega. E ele me cobre e me envolve independente do edredon cair. Me passa a segurança de que o edredon, o lençol, pode cair que não vou passar frio - e o travesseiro pode escorregar que seguirei tendo o peito ou o braço dele pra apoiar minha cabeça. E ficar tranquila.
Uma relação boa é aquela em que um pode contar com o outro pra largar o telefone na assistência já que o horário apertou, em que ela se dispõe a pesquisar algo como uma secretária particular do mesmo modo que ele se dispõe a ficar de olho nas promoções de restaurantes pra eles conhecerem. Relacionamento bom é aquele em que um releva, compreende e orienta, as fraquezas do outro. Enquanto um abre a lata de cerveja, a outra abre o jogo. Enquanto ele prepara a vela, ela põe o som. Enquanto ela pinta os olhos, ele faz a bebida. Enquanto ela seca o cabelo, ele corta o salmão.

Relacionamento bom é aquele que um se abre com o outro, e os dois se abrem pro mundo pois estão cientes que o mundo não se resume aos dois.

Alguns acham que isso é relacionamento aberto, eu acho que esse é o relacionamento mais sério que alguém pode ter. De respeito, de intimidade, de parceria, de união, de quimica, de sintonia, de confiança, de amizade. Na minha opinião. E é por isso que esse cara, que pra vocês é confuso e complicado, pra mim é importante.

Sei que deveria ficar quieta. Sei que a minha determinação e o modo como me exponho assusta tanto quanto, ou mais, do que a minha sinceridade com as palavras. Mas faço questão que ele saiba o quão importante ele é, e que ele lembre todos os dias que alguém gosta dele exatamente como ele é. Sem tirar, nem por. Não é amor, não é namorado, mas é quem eu quero segurando a minha mão hoje. Se ele quiser segurar outras mãos, como eu disse pra ele algumas vezes: segura, mas não solta a minha, não muda comigo.

Eles falaram que gostaram dele, que se eu pensava isso então deveria seguir assim. Disseram que era um cara legal, que me admiravam pelos meus pensamentos e valores, pela minha cabeça. Eu sorri, achei que não precisava falar mais nada além de um sorriso pois já tinha exposto minha visão.

Minha mãe complementou falando que esse cara tem uma energia boa demais, que é querido e carinhoso demais. Eu sorri novamente. Ela disse que espera que a gente fique bem, do nosso jeito, porque o gato está sem pai. A mesa riu, os chopps chegaram. Nós brindamos.

E eu acho que esclareci pra eles o que, pra mim, é um relacionamento bom.

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